Como se destacar na carreira de professor

P. Como um professor deve proceder para destacar o seu diferencial?

Mario Persona - O professor se destaca por algumas características que são notórias a seus alunos. A primeira é o seu conhecimento. Um professor deve conhecer mais do que os alunos e mais do que a maioria das pessoas, pelo menos dentro daquilo que ensina ou de assuntos relacionados. O professor deve conhecer até mais que o próprio livro que porventura utilize nas aulas. Deve surpreender seus alunos com o volume de conhecimento que tem, e isso não significa necessariamente tentar impressionar pelo número de cursos que fez.


Há pessoas que fazem todos os cursos e continuam medíocres simplesmente porque não aprenderam ou tomaram posse daquilo que lhes foi ensinado. Deve existir no professor um grau de erudição que vá além da mera informação, hoje encontrada na forma de commodity em qualquer lugar. Além de conhecer muito, ele não pode parar de estudar, de se informar, especialmente em um mundo tão dinâmico.

Uma cena bastante interessante para ilustrar isso é vista no filme "O sorriso de Mona Lisa", com Julia Roberts. Em sua primeira tentativa de ensinar, ela descobre que suas alunas sabiam de cor todo o texto da apostila. Apresentar aquilo seria um tédio para pessoas que já conheciam tudo o que estava ali. Ela parte então para um outro conteúdo para suas aulas, coisas que não estavam nos livros, que geravam polêmica e discussão. Foi quando passou a ser respeitada pelas alunas.

Outra característica que um professor deve ter é a habilidade de se comunicar. Há professores que sabem muito, porém não conseguem transmitir um átomo de seu saber a uma classe de alunos simplesmente por dificuldade de comunicação. Outros, com uma pequena parcela de conhecimento, dão um verdadeiro show de comunicação e acabam senso lembrados como os melhores professores, mesmo que não sejam os de maior bagagem.

A empatia é outra característica importante. Entender o aluno, descer ao nível de compreensão dele, traduzir o que diz. Deve também procurar criar nos alunos a imagem de que o professor é alguém preocupado com o sucesso deles. Por isso é bom de vez em quando mostrar a aplicação prática do que estão aprendendo, a importância que aquilo terá no futuro.

Para isso o professor precisa ter criatividade, ser inovador e instigador em suas declarações. Uma vez, ao ensinar sobre diferenciação no mercado para uma turma de administração de empresas, percebi que não iria conseguir manter a atenção da classe por muito tempo. Era uma noite quente de segunda feira, os alunos estavam agitados e mais interessados em conversar sobre o fim de semana.

Então me sentei no chão com as pernas cruzadas, diante de toda a classe. O silêncio foi geral. E passei a ensinar a uma classe atenta a importância de fazer algo com seu produto ou serviço que seja diferente de tudo aquilo que as pessoas tenham visto até então.

P. Cursos, palestras podem ajudar nesse processo?

Mario Persona - Sim, tanto cursos e palestras que o professor frequenta com aqueles que ele ministra são importantes para sua formação. Escutar outros é algo extremamente salutar para qualquer profissional, mesmo que conheça o assunto. Diferentes abordagens enriquecem nosso conhecimento. Além de participar como ouvinte, é importante que o professor descubra oportunidades de oferecer cursos e palestras, de cortesia ou até mesmo mediante remuneração, pois além de ser importante para sua marca pessoal participar de eventos assim, é sempre um estímulo ao estudo e à pesquisa.

P. Como os professores podem construir sua marca dentro do ambiente educacional?

Mario Persona - Marketing não é propaganda, mas todo um conjunto de ações, dentre as quais a propaganda é apenas uma de suas ferramentas de comunicação. Assim, quando falamos de marca, não estamos também falando de propaganda ou publicidade, mas do resultado de todo um conjunto que acabará criando uma impressão em seu público.

A marca é aquilo que as pessoas pensam de alguém. No caso de sua área de atuação, é a percepção que o público tem de suas competências. Criar uma marca é criar uma impressão indelével na mente de seu público, de preferência uma impressão positiva, evidentemente. Há professores que parecem gostar de ser considerados antipáticos, orgulhosos, soberbos, sem perceber que isso é um desastre para sua marca. O professor é, antes de tudo, alguém que está a serviço de seus clientes e alunos. Ele precisa saber se vender para o público que paga por seus serviços.

É importante entender também que a marca pessoal não significa que ele seja um profissional auto-suficiente em si mesmo, como aconteceria, por exemplo, com uma marca de sabão em pó. O professor, assim como todo profissional do conhecimento, não é um ser isolado, um depósito de conhecimento que é compartilhado com seus alunos. Ele é que o porta-voz de informações que obtém do grande manancial do conhecimento humano para processá-las e torná-las digeríveis para seus alunos.

Quando perguntaram a Isaac Newton como ele conseguiu fazer suas descobertas, ele respondeu que estava sentado nos ombros de gigantes. Por isso é a humildade que deve caracterizar o profissional que ensina, e não o egocentrismo ou a ideia de que ele seja a última bolacha do pacote. Ele depende dos que vieram antes dele, depende dos outros professores de outras disciplinas e depende dos alunos que o estimulam a estudar sempre e a melhorar sua comunicação. Enfim, ele não é uma ilha.

Mas é certo que o professor precise administrar sua carreira como quem administra uma empresa ou produto. O professor deve entender que possui um produto - ele mesmo e sua bagagem de conhecimento - e atua em um mercado formado por clientes que devem ser levados em consideração. Se seus clientes não estão consumindo ou gostando de seu produto, não pode culpar os clientes. Ele deve experimentar diferentes receitas, diferentes embalagens, diferentes formas de servir seu conhecimento até encontrar uma forma que cative seu mercado.

P. Como os professores devem adequar suas carreiras e que passos devem seguir para obterem sucesso de acordo com esse conceito?

Mario Persona - Neste sentido o profissional deve se expor, deve mostrar a cara. Você não compra produtos que não estejam expostos no supermercado, ou que pareçam velhos, amassados, pouco atraentes. Por isso o professor deve trabalhar todo o conjunto, não apenas o conhecimento que tem, mas também sua comunicação, linguagem corporal, presença em público, modo de vestir, lugares que frequenta etc. Ele pode até se vestir de um modo aparentemente desleixado se for este o seu estilo e se isso causar nas pessoas a impressão que gostaria de causar.

Por exemplo, um professor de física com os cabelos meio desgrenhados e espetados poderia criar uma imagem de excêntrico, desde que ele não ande com a língua para fora querendo parecer Einstein. Um professor de direito em seu terno impecável pode causar uma boa impressão dentro do contexto em que atua. Uma professora de idiomas que se veste com roupas modernas pode passar a impressão de modernidade que o aprendizado de um idioma estrangeiro requer. Coisas assim são importantes e fazem parte de todo o conjunto de comunicação que o profissional precisa trabalhar se quiser causar uma impressão indelével na mente de seu público.

P. Levando em consideração essa comparação com o produto e a carreira do educador, no que a teoria 4 P's, tão divulgada por Philip Kotler, pode ajudar o professor a se destacar?

Mario Persona - Você está se referindo aos aspectos produto, preço, promoção e praça ou ponto de atuação para o profissional. Primeiro ele precisa investir mais no quinto "P", o "P" de "Pessoa". Precisa ser alguém com uma conduta adequada, com caráter, com condições de servir de exemplo para seus alunos, porque o professor tem grande influência em mentes ainda maleáveis e deve tomar cuidado com o tipo de impressão que causa nelas.

Como "produto" ele deve trabalhar aquilo que é o cerne de sua atividade, o conhecimento. Um professor não pode parar de se atualizar. O "preço" vai depender muito de sua habilidade de negociar e, principalmente, vender seu "produto". Alguém que esteja em destaque na mídia, que tenha livros publicados, que seja convidado para palestras - todas estas atividades decorrentes de sua bagagem de conhecimento - certamente terá um maior poder de negociação na hora de pleitear por uma colocação.

O "P" de promoção é bom para lembrar que não basta ter bagagem se ninguém souber disso. Por isso é importante que o professor seja alguém para o mundo exterior à sala de aula, que ele se faça conhecido. Hoje isso é muito mais fácil com a Internet, desde que ele consiga criar um estilo próprio e saiba se expor da maneira correta.

A "praça" ou local de atuação também é importante. Pode ser necessário que o professor esteja nos lugares certos na hora certa e isso nem sempre de forma remunerada. Por exemplo, ele pode querer atuar em um trabalho de cunho social, além de suas atividades remuneradas. Pode precisar circular em lugares onde crie relacionamentos importantes para sua carreira. Pode precisar escolher onde irá ensinar, menos por questões financeiras e mais por questões de visibilidade. Enfim, ele precisará de discernimento para entender que lugar dará maior valor à sua profissão, e quando falo de valor não estou falando de remuneração.

P. E a publicidade? Ela pode ajudar o educador a "firmar" sua marca diante do mercado de trabalho?

Mario Persona - Sim, sem dúvida, porém mais a publicidade do que a propaganda. A diferença é que propaganda é aquilo que você paga para aparecer e publicidade é aquilo que faz você aparecer sem pagar nada por isso. Por exemplo, uma entrevista na imprensa é uma excelente oportunidade para gerar publicidade. Uma palestra feita em algum evento ou instituição também. Mas o professor não pode se esquecer que o maior recurso de publicidade que possui está bem na frente dele, na sala de aula. Refiro-me ao boca-a-boca gerado pelos alunos. Este tem poder para fazer um professor decolar ou levá-lo ao desastre total. Como ele é visto pelos alunos? Pode ser que os alunos odeiem sua disciplina, mas isso não significa que devam odiar o professor.

P. Que ferramentas e estratégias aplicadas no ramo publicitário podem ser usadas pelos professores para divulgar sua marca?

Mario Persona - Um bom relacionamento com a imprensa é essencial e ele deve procurar deixar claro quais são suas habilidades e campo de atuação se quiser virar fonte. Fonte é a pessoa que está sempre na memória dos jornalistas quando precisam de alguém para ajudá-los a desenvolver alguma pauta. Digamos que o professor de biologia tenha se destacado como bom entendedor de assuntos relacionados ao impacto da poluição nos seres vivos. Se ele conseguir criar uma imagem assim e tiver um bom relacionamento com a imprensa poderá ser chamado a dar entrevistas sempre que surgir uma pauta sobre isso.

Mas é importante que ele saiba como fazer sua habilidade se relacionar com o interesse público. De nada adianta um professor de matemática ser autoridade em equações. Nenhum jornal vai publicar matérias sobre equações, mas se ele aproveitar seu conhecimento de matemática para se aperfeiçoar em finanças, por exemplo, ou em estatísticas, ou em qualquer área de interesse público, terá maiores chances de ser bem sucedido em sua estratégia de publicidade. Lembre-se de que muitos jornalistas que falam de economia não são economistas, mas estudaram o assunto e criaram uma comunicação fácil par ao público que atingem. O professor deve ter isso em mente, porque ele é também um comunicador.

P. Ser diferente e inovador é um grande diferencial em qualquer área. Como o educador pode usar essas ferramentas a seu favor para conseguir se destacar?

Mario Persona - Ele deve trabalhar muito bem sua marca pessoal e isso está atrelado à sua conduta, seu modo de ser. Há profissionais que levantam o queixo, afinam o nariz, e dizem: "Eu sou assim, este é o meu jeito e não vou mudar!" Muito bem, então o que estou dizendo aqui não é para você. Estou falando com pessoas que estão preocupadas em servir bem seu público, que estão preocupadas com a formação de novos talentos e carreiras de sucesso, e não com pessoas que estão ancoradas no próprio umbigo. Se existe um diferencial em qualquer produto é sua capacidade de encantar e beneficiar as pessoas que o compram. Não é diferente com o professor e o produto de seu conhecimento.


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Entrevista concedida ao livro Professor S.A. da Humana Editorial em 25/01/2006. Entrevistas como esta costumam ser feitas para a elaboração de matérias, portanto nem tudo acaba publicado. Eventualmente são aproveitadas apenas algumas frases a título de declarações do entrevistado. Para não perder o que disse na hora e posso nunca mais conseguir dizer, costumo gravar ou dar entrevistas por escrito. A íntegra do que foi falado você encontra aqui.

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