Gestao participativa

Como você enxerga a gestão participativa?

Mario Persona - Bem, quando se fala em gestão participativa, a primeira idéia que vem à mente é de participação nos resultados financeiros de uma empresa. "Se der lucro, vamos dividir uma parte com vocês". Esse é o discurso mais moderno que alguns empresários conseguem dirigir aos que trabalham.

Essa é uma visão estreita do termo. Academicamente falando, gestão participativa é o modelo de administração que tem seu foco na capacitação, desenvolvimento, otimização e valorização do ser humano. É a gestão que procura fazer com que um profissional se sinta mais do que mera parte de um processo. Ele deve se sentir responsável por ele e por seus resultados.

A idéia não é nova. Uma das pioneiras deste pensamento foi Mary Parker Follett, que já no início do século vinte achava que organizações deviam funcionar como redes ou grupos de trabalho, e não como estruturas hierárquicas, com ênfase no relacionamento humano dentro do grupo. Embora hoje esse tipo de observação seja lugar-comum, em sua época era um pensamento revolucionário, e seu conceito é muito mais profundo do que a ponta do iceberg da participação nos lucros, no patrimônio ou no controle acionário da empresa.

Por que e quando adotar este modelo de gestão na administração de uma empresa?

Mario Persona - Quando a água está batendo no queixo pode ser tarde. O que levou muitas empresas a buscarem um modelo assim de gestão foi o baixo desempenho no mercado, geralmente causado pelo desinteresse de sua força produtiva por aquilo que produz. Algumas nem tiveram tempo de anotar a placa do caminhão. Foram jogadas fora do mercado sem dó. Outras foram salvas pelo gongo de uma gestão participativa, como aconteceu com a Harley-Davidson.

Na lendária fabricante de motocicletas, os mesmos funcionários que ajudaram a levar a empresa à bancarrota foram os que a salvaram e transformaram a marca no sucesso de vendas que vemos hoje. Tudo isso depois que se tornaram acionistas e passaram a enxergar o trabalho com outros olhos.

O que aconteceu? Será que antes eles trabalhavam com más intenções, queriam sabotar? Nada disso. Simplesmente trabalhavam para um patrão, como a maioria das pessoas faz hoje. Viviam com uma perspectiva de migalhas, como quem trabalha de olho no dissídio coletivo. Quem não consegue enxergar longe nunca sai de perto.

Quais as diferenças fundamentais entre os modelos centralizados e participativo, bem como seus reflexos na administração?

Mario Persona - A diferença fundamental é de valor. Ninguém valoriza o que não é seu. Veja que este "ser seu" pode não significar necessariamente a transferência da propriedade física, mas a transferência da propriedade conceitual.

Explico com um exemplo tirado de meu próximo livro, "Marketing Tutti-Frutti"
. O caso aconteceu no aeroporto de Viracopos, em Campinas, onde eu aguardava um vôo num saguão quase vazio. O garoto engraxate saiu de sua cadeira, atravessou o saguão e perguntou se eu queria engraxar. Distraído, disse que não.

Enquanto ele voltava para sua cadeira, observei quando ele se desviou de sua rota apenas para pegar um papel de bala no chão do aeroporto e levá-lo até a lixeira mais próxima. Aquilo foi suficiente para eu ir até sua cadeira e pedir que engraxasse meus sapatos. Queria ter a honra de ter os sapatos engraxados pelo dono do aeroporto de Viracopos. Pois só mesmo o dono do lugar teria uma atitude como aquela, de considerar sua até uma responsabilidade que cabia a outra pessoa, a da limpeza.

Eu diria, portanto, que você encontra muito da atitude de uma gestão participativa dentro de um modelo centralizado de gestão. Uma pessoa com uma atitude participativa trabalha perfeitamente bem dentro de um modelo de gestão centralizada, pois a sua consciência de dever e responsabilidades estão acima de qualquer pirâmide hierárquica. Ele recebe suas ordens de algo acima do presidente: sua formação e consciência.

O oposto não é verdadeiro. Alguém sem essa atitude jamais funcionaria em um ambiente diferente do tradicional patrão-empregado. Acabaria sendo um peso, não se sentiria parte do processo. Por isso a mudança do modelo de gestão em uma organização pode resultar também na troca de algumas pessoas. Portanto, se eu precisasse definir com poucas palavras a diferença entre um modelo e outro - gestão centralizada ou participativa - eu diria que a diferença está na atitude das pessoas.

Você poderia citar algumas vantagens e desvantagens no processo de delegação de autoridade neste modelo de gestão (participativa, quero dizer)?

Mario Persona - Quando não existe a cultura de sentir-se proprietário e responsável, de buscar os resultados como sendo seus, tudo será desvantagem na tentativa de se trabalhar dentro de um modelo de poder delegado a quem não saberia o que fazer com ele. É preciso antes preparar as pessoas, criar nelas o desejo, mostrar o ganho disso não apenas financeiro, mas principalmente em prazer e prestígio que, junto com o dinheiro, são as molas propulsoras do trabalho.

Quando jovem e recém formado, parti para Goiás cheio de idéias e ideais. Morei três anos em Alto Paraíso, uma comunidade então com menos de mil pessoas, onde adquiri um pedaço de terra e fiz algumas experiências. Uma delas foi oferecer a algumas pessoas a parceria na exploração da terra. Ninguém se interessou. A cultura local na época era de garimpo e criação de gado solto em pastos renovados com queimadas. Duas atividades que exigem um mínimo de esforço, são predatórias e visam resultados de curto prazo.

Outra experiência foi promover uma feira livre na cidade, convocando qualquer pessoa que tivesse algo para vender - laranjas de um pé no quintal, queijo feito em casa, panos de prato bordados, qualquer coisa - para se reunirem no pasto que era chamado de praça para negociar nas manhãs de domingo. A experiência despertou interesse e gerou um comércio salutar, quase que baseado em trocas, que logo sucumbiu sob a pressão e boicote dos poucos comerciantes locais, donos de vendas e botecos.

Estes são basicamente os dois maiores impedimentos para a implantação de uma cultura de gestão participativa: imediatismo e ameaça ao poder. A pessoa que trabalha pelo salário do fim do mês pode, no máximo, enxergar o décimo terceiro, não mais do que isso. Nem imagina o que seja um investimento de longo prazo. Isso do lado empregado. Do lado patrão, ainda trazemos resquícios de uma sociedade colonial, do senhor do engenho, que prefere morrer a abrir mão do poder. E às vezes esse senhor do engenho nem é o dono da empresa ou seus acionistas, mas um reles gerente ou supervisor cujo pequeno feudo é defendido com uma ferocidade que em alguns casos chega a custar o próprio negócio.

A diminuição de processo de monitoramento (controle) no trabalho pode prejudicar a execução da tarefa, assim como da própria responsabilidade sobre a atividade produtiva?

Mario Persona - Sim, se as pessoas envolvidas forem as pessoas erradas ou despreparadas. Não basta chegar numa organização e dizer, "Pessoal, a partir de hoje vocês são todos donos disso aqui". Vai acontecer como acontece com muitos dos ganhadores da loteria: acabam mais pobres do que antes de comprarem o bilhete.

O garoto que se abaixa para pegar um papel de bala no chão de um aeroporto é um engraxate, mas com uma atitude de cidadão de país de primeiro mundo. O garoto que joga uma lata de cerveja vazia pela janela de sua Ferrari é herdeiro de um império industrial, porém tem uma atitude de cidadão de quinto mundo, se é que existe.

Então não se trata de uma questão de se implementar uma nova forma de gestão - a Ferrari dos processos administrativos - mas da formação da atitude de uma equipe que possa comprar seu lugar na gestão. Quando isso acontece, a mudança do modelo é apenas uma formalidade, o resultado de uma cultura que foi implantada por um trabalho prévio.

Como você vê o futuro da gestão participativa no Brasil?

Mario Persona - Vejo com bons olhos pela coragem, determinação e aptidão às mudanças que são qualidades inerentes aos brasileiros. Porém essas qualidades estão, na maioria dos casos, aprisionadas pela atitude paternalista que faz parte de nosso legado cultural. Fomos colonos, e continuamos esperando que alguém nos alimente. Mas isso está mudando rapidamente, nem tanto por imposição de novos modelos de gestão, mas por necessidade mesmo. A necessidade é a mãe da criatividade, e é por isso que nosso país abriga uma das maiores porcentagens de empreendedores do mundo. Quando o sapato aperta, todos nós sabemos como virar sapateiros. Só falta agora aprimorar esse sapato, dar um retoque aqui, outro ali. E contratar um engraxate para nos ensinar como fazer isso.




Entrevista concedida ao Canal Saúde da Fundação Oswaldo Cruz em 09/07/2003. Entrevistas como esta costumam ser feitas para a elaboração de matérias, portanto nem tudo acaba publicado. Eventualmente são aproveitadas apenas algumas frases a título de declarações do entrevistado. Para não perder o que disse na hora e posso nunca mais conseguir dizer, costumo gravar ou dar entrevistas por escrito. A íntegra do que foi falado você encontra aqui.

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