Linguagem corporativa

P - Existem formas de tornar a linguagem corporativa mais atrativa e ao mesmo tempo contemplar termos específicos de distintas áreas de atuação?


Mario Persona - Sim, certamente. A primeira providência é esquecer os jargões que ainda povoam textos e discursos. Costumo chamar de estilo saquinho de padaria, daqueles que sempre trazem escrito que nossos produtos são feitos com ingredientes da melhor qualidade. Todos são.

É importante simplificar a linguagem, principalmente no meio de negócios. Mas simplificar não significa falar ou escrever errado. É apenas uma questão de economia de palavras. Se um profissional não quiser ficar na situação de quem não tem palavras para se expressar, é bom economizá-las. Brinco que em minhas viagens sempre deveria ter levado metade das roupas e o dobro do dinheiro. Falar bem é usar metade das palavras com o dobro do significado.

O uso de expressões próprias para cada negócio é uma faca de dois gumes. Serve para comunicar bem as idéias para os da mesma confraria, porém pode se transformar em linguagem elitista e hermética, principalmente no trato com o cliente. As piores pessoas para você deixar falar com os clientes são justamente aquelas que prezam mais a bagagem de palavreado técnico que possuem. Acabam usando seu arsenal para impressionar e não se preocupam em comunicar.

P - Qual o limite entre a formalidade e da informalidade?


Mario Persona - Há dois vocabulários, o informal demais e o formal demais. Vou dar um exemplo. Veja dois amigos que estão hoje no mesmo nível hierárquico na empresa e você irá encontrá-los sem papas na língua.

Deixe que um deles suba bastante, e o que ficou preso ao chão perde aquela informalidade e o relacionamento passa a soar falso. O que aconteceu? Antes havia respeito de menos. Depois, respeito demais. Se existisse uma linguagem informal sem exageros, nem para cima, nem para baixo, a comunicação continuaria no mesmo nível.

Tenho por hábito não chamar as pessoas por "senhor" ou "senhora", a menos que sejam mais velhas do que eu. Você já deve ter deduzido que a cada ano encontro menos pessoas nesta classe, não é mesmo?

Bem, nunca chamei meu pai ou minha mãe de "senhor" ou "senhora", mas nunca os desrespeitei. Tinha um colega de infância que costumava chamar sua mãe de "senhora" em público, algo do tipo, "a senhora é uma #@*&%!$", e lá vinham imprecações contra a própria avó. Portanto, não é a forma da linguagem que exala o respeito, mas o seu conteúdo. E, obviamente, a qualidade da garganta de onde ela sai.

Acho que no mundo dos negócios o uso de "senhor" ou "senhora" pode dar idéia de respeito, mas também de medo e subserviência. Talvez eu esteja errado nisto, pois boa parte de meu início na vida profissional foi como negociador, primeiro adquirindo imóveis milionários para abertura de agências de um banco privado, depois negociando contratos para a Companhia do Metrô.

Isto deixou em mim um certo destemor no trato e na linguagem que utilizo para com as pessoas, o que não implica necessariamente falta de respeito. É mais uma atitude quase instintiva de procurar nivelar a conversa. Fazemos isto até inconscientemente, quando procuramos uma mesa para negociar. Mesas colocam negociadores no mesmo nível. A linguagem deveria fazer o mesmo.

Quer ver uma coisa interessante? Ao encontrarmos alguém na arena de negócios, costumamos usar "senhor" ou "senhora", não é mesmo? Aí ganhamos alguma intimidade, passamos a tratar por "você". Se o relacionamento se deteriorar e estivermos à beira de uma briga, voltamos ao "senhor" ou "senhora". A formalidade serve de distanciador, na alegria e na tristeza. Por isso sou contra a formalidade, mas a favor da manutenção do respeito.

P - Quais as vantagens para a empresa em aprimorar e difundir uma linguagem uniforme entre funcionários e clientes?


Mario Persona - Acho que se deve investir na informalidade como cultura na organização. Informalidade é importante para nivelar e facilitar a comunicação interna. É claro que nem todos entendem que ser informal não é ficar livre para intimidades ou desrespeito. Não se deve confundir informalidade com linguagem chula ou falta de erudição. Os melhores informais são os eruditos que não se gabam de sua bagagem. É preciso saber muito para falar pouco. Os piores formais são os que tentam impressionar pela formalidade da linguagem.

Outra cultura que deveria ser difundida nas empresas é a cultura da analogia na linguagem - o uso de parábolas, tipos e figuras. Isto estimula a criatividade, pois nosso cérebro funciona com analogias. A própria linguagem cria figuras análogas de pensamento, num processo de tradução constante.

Quando falamos em parábolas, falamos de uma forma que pode ser assimilada por todos, na medida da capacidade de cada um. O cérebro de cada um irá encontrar o significado dentro dos limites de seu depósito de conhecimento, e a comunicação deixará de ser hermética para alguns, ou simplista para outros.

P - Como incorporar termos novos ao vocabulário dos funcionários de maneira eficiente e rápida?


Mario Persona - Não existe caminho melhor para a comunicação do que a leitura. Estimular seus colaboradores no hábito da leitura é uma excelente forma de se criar uma equipe com um bom vocabulário. Acredito tanto na importância de uma boa comunicação na empresa, que a primeira receita de meu livro "Receitas de grandes negócios" leva o título de "Manjar de escrever". Ali dou uma série de dicas de como transformar a comunicação escrita em algo delicioso. Alguns ingredientes podem ser aplicados também à comunicação falada.

P - Você é a favor do uso de termos estrangeiros ou devemos buscar traduções?


Mario Persona - As línguas são dinâmicas, evolventes e construídas por influências ao longo dos tempos. Hoje usamos "folclore", que já foi uma palavra inglesa. E os ingleses usam "gentleman" no sentido de um homem educado e bom, quando a palavra antiga cabia ao senhor feudal, que era tudo menos cavalheiro. As palavras mudam de significado e de nacionalidade, o que é normal.

Devemos usar nosso idioma naquilo que ele tem de melhor para comunicar, enquanto assimilamos outros idiomas ou novas palavras naquilo que também puderem ajudar. A língua é nossa serva, não o contrário. Nem tudo pode ser traduzido, ou os americanos já teriam criado uma expressão inglesa para bossa-nova. Quando fizerem isso, iremos revidar e deixaremos de ouvir "jazz" e "blues", em troca de "música sincopada" e "azuis" .


Entrevista para o Portal da Universidade Corporativa do Banco do Brasil em 25/09/2002

Nenhum comentário:

Postagens populares

O palestrante Mario Persona fala de Criatividade, Carreira, Comunicação, Marketing & Vendas em entrevistas para jornais, revistas, sites e emissoras de rádio e TV.